Efémera

Posted in Virginia Wolf (?) by Sara on 16/09/2011

Diz-me que tenho todos os defeitos do mundo. Diz-me que sou reles, inútil e imbecilmente idiota. Trata-me como lixo e a seguir atira-me aos lobos. Leva-me a acreditar que não valho nada, que não sou nada, que nunca serei nada. Transporta-me para o inferno e faz de ti meu deus. Rouba o meu mundo e não terás nada. Não me deixes ser feliz e tu também nunca o serás. Porque assim está escrito nas estrelas.

Lá no cimo, onde tu não chegas. Onde não podes mudar nada. Onde não podes mandar em nada. Porque as estrelas não te obedecem – elas são servas do destino. Elas são a verdade, elas não são tu. Elas não são as mentiras que apregoas. Elas não são os obstáculos que me atiras incessantemente. Porque assim está escrito algures nas estrelas.

Obriga-me a amar. Faz-me acreditar no amor como se ele nunca tivesse existido. Como as coisas que existem sem nunca terem existido. Como os mistérios que revelas querendo magoar-me. Severo, não podes magoar o que está morto. O que tu mataste. O que tu reduziste ao mero desejo de renascer. Preciso de respirar e ninguém me dá o ar que eu preciso.

Amo como amar não sei. Sofro como amar não sei. Vivo como amar não sei. E, se amar continuo sem saber, ao fim de todo este tempo, não tenho nada. Não te tenho a ti. Não me tenho a mim. O tempo passa velozmente e eu parei, estagnei por e ti e para ti. Tudo é breve, tudo cessa, menos eu, menos nós. Diz-me que tenho todos os defeitos do mundo. Diz-me tudo mais uma vez. Porque tudo é efémero, e eu assim não sei viver.

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