Carta a uma dor que doeu

Posted in Vazio, Virginia Wolf (?) by Sara on 30/01/2011

Voltar atrás, ilusória e veementemente, como pela primeira vez. Ser tudo o que não fui, ser tudo o que nunca serei. Como é belo o feio que se vê ao longe e que, ofuscado pelo sol, me dá a impressão de ser a minha alma gémea – debaixo da mesma luz, acolhidos pela mesma brisa. Sou os pedaços rasgados da folha que deitaste ao chão e sopraste, afastando-a ti – fiz doer, não foi? Oh, que dor essa que também foi minha, foi nossa, foi de todos. Não porque tinha que ser, mas porque era forte de mais para ser suportada apenas por nós. Os meus braços cansados, o teu olhar derrotado, lado a lado, indiferentes; a multidão à volta, portentosa, dona da razão. No fim, apenas nós, sem nada para oferecer a ser não ser o corpo vencido pelos dias. E a multidão não percebe, nunca percebeu – a razão não sabe o que é o amor.

Divides-me em duas, a boa e a má, a inteligente e a burra, a forte e a fraca, a sonhadora e a deprimida – quem te deu tamanho poder sobre mim? Porque me controlas e, se me controlas, nada mais sou que o teu fantoche. Arrastas-me pelas ruas, sem vida. Empurras-me para a estrada, novamente, alguma vida, ou nenhuma. Sou um rio que chora a morte de quem nunca viveu, a vida de quem nunca nasceu. Sou um quase tudo, um quase nada, uma indiferença remota de um tempo que ficou por vir; a promessa que ficou por cumprir. E tu, quem és?

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