Antítese

Posted in Odisseia, Vazio by Sara on 24/09/2010

– Não me consigo lembrar da última vez que fui feliz.

Levantas-te irado da cadeira e fixas-me furioso, como se te arrancasse parte da alma a cada palavra arremessada. Invocas um tempo e um espaço que dizes serem nossos, apesar de não rever nada meu em toda a sua plenitude. Nunca estive verdadeiramente lá, não reconheço os momentos que cantas nos meus ouvidos e não tenho saudades de nenhum momento que passei contigo. Indignado com a ausência do meu doce “eu”, proteges os teus ouvidos da brutalidade das minhas palavras, mas a verdade continua a sair, incólume e derradeira.

Não me peças para ser outra que não eu. Sou assim, sempre fui assim e tu sempre o soubeste; enclausurados no silêncio de um olhar que se prolongou tempo de mais. Questionas onde está a minha verdade? Estás ao lado da tua, algures no canto da casa que ousámos construir – por que não aceitas vê-la? Ambos caminhamos para ela inconscientemente, derradeiramente como para o nosso destino. Fatal, incontornável. Como tu, como nós. Como tudo aquilo em que alguma vez acreditei.