Virginia

Posted in Vazio, Virginia Wolf (?) by Sara on 27/08/2010

Corre como um fio de chuva a deslizar pelo piso molhado, sem pressas, como se toda a beleza do mundo se resumisse a este instante. Pausadamente, suavemente, como um toque quente numa superfície fria – um arrepio. Num jeito quase bipolar, mergulha uma e outra vez, ora insaciável, ora farta de tanta pressão. Há que continuar, não porque a alma quer, mas porque tem que ser. E a vida corre a seu lado porque sim, porque alguém superior a ela determinou tal facto – e ela vive-a porque o destino assim quis. Até quando? Até quando vai correr como um fio de chuva, tocar com um arrepio, mergulhar, continuar, viver?

Uma brisa suave cobre-lhe o rosto e ela treme, surpresa por um frio gélido que a trespassa. Desistir é uma palavra tão forte que a arrepia. Desistira se isso tivesse outro nome, mais belo, promessa da mais bela escapatória – partiria sem olhar para trás, rumo à certeza do incerto. Mas isso não acontece, mesmo tendo que acontecer. O destino é um lugar estranho, tão inóspito como a própria alma, tão deserto como a sua vida. E neste dia ela deseja a morte, da mesma forma que amanhã desejará a vida – há dias assim.